O Demônio da Perversidade | Edgard Allan Poe

A Beira do Precipício

Paramos a beira do precipício. Nossa visão se projeta para o abismo, somos tomados por um assomo de náusea e vertigem. Nosso primeiro impulso é afastar-nos do perigo.

Sem a menor explicação, permanecemos ali. Lentamente, nosso enjôo, nossa tontura, nosso horror se mesclam a uma nuvem de sentimentos indizíveis.

Gradativamente, ainda mais perceptível, esta nuvem toma forma, como o vapor que surgiu da garrafa de Aladim e formou o gênio das Mil e Uma Noites.

Porém desta nossa nuvem à beira do despenhadeiro, torna-se progressivamente uma forma mais terrível que a do gênio, muito mais horrenda que a de qualquer demônio lendário; e no entanto, é somente um pensamento, por mais amedrontador que seja, que nos gela até a medula dos ossos com a ferocidade inerente à delícia de seu pavor.

É meramente a ideia de qual seria a nossa sensação durante o mergulho precipitado de uma queda de tal altura. E esta queda — esta aniquilação rápida — pela própria razão de que invoca a mais macabra e repugnante dentre todas as imagens tétricas e repelentes da morte e sofrimento que já se apresentaram à nossa imaginação — por esta mesma causa imaginamos saltar agora e o desejamos vividamente.

E uma vez que nossa razão violentamente nos impede que cheguemos à borda, justamente por isso nos aproximamos mais impetuosamente.

Não existe na natureza o que seja tão demoniacamente impaciente como a daquele que hesita à margem de um precipício, meditando sobre se há de saltar ou não.

Deter-se, ainda que por um momento, na contemplação desse pensamento, é estar violentamente perdido; porque a reflexão nos ordena afastar-nos sem demora e portanto, exatamente por isso, é que não podemos.

Se não houver um braço amigo que nos ampare, ou se não fizermos um esforço súbito para afastar-nos do abismo, saltaremos e seremos destruídos.

Edgar Allan Poe ❤️ 1845

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