As multidões | Baudelaire 

As multidões ❤️

De Charles Baudelaire em Pequenos Poemas em Prosa

Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte (…)

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo.

Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco.

Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem. Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas.

Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.

Baudelaire! Adoro esse olhar ❤️ hehehe

Esse texto está em um livro lindo que amo, Pequenos Poemas em Prosa, que passei a noite relendo e deixo aqui o link do PDF pra quem quiser passar duas horinhas de prazer!

No início do livro, a carta de Baudelaire a seu amigo Arsène Houssaye, explicando os escritos que estava a enviar-lhe!

“Meu caro amigo, estou-lhe enviando um pequeno trabalho que não se poderia dizer, sem injustiça, que não tenha pé nem cabeça, pois, ao contrário, tudo o que ele tem é, ao mesmo tempo, cabeça e pé, alternada e reciprocamente.

Considere, eu lhe peço, que admiráveis comodidades essa combinação nos oferece a todos, a você, a mim e ao leitor. Nós podemos interromper onde quisermos, eu os meus devaneios, você o manuscrito e o leitor sua leitura; porque eu não impeço a vontade contestadora de cada um no curso interminável de uma intriga superfina. Tire uma vértebra da coluna e as duas
porções dessa fantasia tortuosa se reunirão sem dificuldade. Parta-a em numerosos fragmentos e você verá que cada um pode existir isoladamente. Na esperança de que alguns desses pedaços serão os mais vivos para agradá-lo ou distraí-lo, eu ouso dedicar-lhe a serpente inteira (…)”

Leiam a carta toda e esses Pequenos Poemas em Prosa que são deliciosos!

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